21/06/2014

O interior

O interior 

Dia alegre. Tarde feliz. Parte da noite boa, porém, a outra parte, ruim. E foi justamente essa a pior parte, aquela que conseguiu jogar as coisas boas para o lado, dentro de um baú e trancá-las, deixando a gota de raiva cair da torneira, preenchendo o coração de sentimentos pesados. Sentimentos que perturbam a noite, que nos enlouquecem, pois sabemos que alguns deles podem ser resolvidos, mas não depende apenas de nós. 
A madrugada que provavelmente seria boa, se tornou tediosa, sem a chave principal que alegrava as noites. E os sentimentos dolorosos dominaram, deixando sombras nas paredes, abrindo o portão e deixando os monstros saírem. 
Uma boneca. Vestido curto, rodado, carminado como o sangue. Ela o mexia de um lado para o outro, saltando pelo cômodo da casa. Seus movimentos eram intensos, porém, loucos. A cabeça se movia para o lado direito, e depois o corpo para o esquerdo. Num balançar de ombros, tentando espantar a angustia, ela cantava mentalmente, sentindo as lágrimas de sangue mancharem suas bochechas rechonchudas. O monstro interior gritava, pulava e dançava. Colocava ambas mãos na cabeça, caminhando para trás e puxando os cabelos. Ela estava enlouquecendo, mas apenas por dentro, seu exterior demonstrava uma garota normal e aceitavelmente feliz. 
A boneca fazia gestos engraçados, como se pudesse comer o ar e ouvir o que ele dizia. Mimica? Talvez. O vermelho carmim do vestido começou a escorrer, fazendo gotas vermelhas caírem no chão, e assim deixando o vestido na cor branca. A boneca voltava a se movimentar,  pulando de uma cama para a outra, mexendo a cabeça rapidamente. Ao descer da cama, se ajoelhou, passando as mãos no chão, depois girando a cabeça e movimentando os ombros para trás. 
Levantando as mãos, passando as unhas no próprio rosto; ela movia a boca, mas não emitia som. Existe melodia no silêncio, mas apenas para aqueles que conseguem ouvir. E os gestos desengonçados da boneca, diziam o que o interior da humana queria apresentar. 
Ela sumiu, dando lugar a um grande par de olhos amarelados. Olhos que abriam e se fechavam rapidamente, esboçando um sádico sorriso na grande boca que estava escondida nas sombras. Ele era um dos sentinelas daquela pobre mente perturbada, mostrando o quanto ela podia ser louca. O sorriso não sumia, e os olhos piscavam lentamente, demonstrando o tom amarelado com um fundo verde. Eram como olhos de felinos, talvez fossem, mas naquele momento ela não conseguia enxergar outra coisa a não ser a raiva. 
Por que? Por que precisavam ser tão duros? Por que não existia uma confiança melhor? Ela era ruim? Errada? As perguntas apareciam rapidamente, em questão de segundos, criando o caos na mente confusa. Ela apenas queria ouvir a voz dele, saber como ele estava e dizer o quanto gostava do seu perfume. Mas esta oportunidade foi negada a ela. Diziam que sua voz acordaria os outros, mas ela sempre conversava na madrugada e eles dormiam tranquilamente. Implicâncias, histórias distorcidas. A mente tentava esconder a parte ruim e deixar apenas as lembranças do dia bom, para nascer uma manhã agradável no dia seguinte. Mas ela não conseguia deixar de pensar. Não conseguia dormir sem desejar boa noite a ele e dizer que o amava. Sua mente estava ficando perturbada, não conseguia parar de pensar nele, sem dizer o quanto aquele ceifador era importante. 
Lamentar e manter o sentimento ruim não  levava a lugar algum, e sim piorava seu interior perturbado. Ao olhar para o lado, estendeu a mão direita, encostando seus dedos na mão grande e magra de Morpheus, que a esperou adormecer e acalmou sua mente, presenteando-a com bons sonhos. Um belo presente ele deu. Um passeio no Sonhar, e logo uma mesa de chá com o Ceifeiro louco. Morpheus desapareceu do sonho, dando privacidade aos dois.  Os grandes olhos felinos reapareceram, mas dessa vez o grande sorriso era gentil. Num gato ele se transformou, deitando no colo de Ceifeiro que logo o abraçou, depositando carícias em sua cabeça. Ela sorriu ao ouvir o ronronar do Felino, que num corvo se transformou e sobrevoou o Olimpo. A mesa de chá desapareceu, o Ceifeiro sumiu e tudo que ela conseguiu ver foi Zeus e seus irmãos Poseidon e Hades. Morpheus reapareceu, mas de uma outra forma, como um deus. Filho de Hipnos, irmão de Ícelo e Fântaso. Morpheus continua sendo o deus do sonho, mas não era mais o famoso Sandman de Neil Gaiman. Ao sonhar ela retornou, Morpheus acariciou suas bochechas grandes e fez com que ela esquecesse tudo que sonhou. Ela despertou com o barulho do celular, levantou da cama, calçando chinelos e olhou o céu pela janela da cozinha. Já havia amanhecido, mas ela sabia que a manhã seria amarga como em qualquer outro dia.

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