19/03/2014

Amarga Manhã

Amarga Manhã 

Ela tinha acabado de acordar. Achou que ganharia um beijo de bom dia, mas talvez um tapa no rosto tenha sido o mais próximo disso. Seus cabelos estavam jogados para o lado, enquanto os olhos reviravam lentamente. As lágrimas molhavam suas bochechas, e ela fazia promessas enquanto fechava os olhos e sussurrava as palavras. Ao invés de acordar e receber elogios, ou um abraço apertado, ganhou ameaças. Ela não entendia o motivo das coisas serem assim. Afinal, sempre tentava ajudar no que podia, mesmo sendo torta e errada, ela arrumava uma forma de se consertar. Mas o resultado não era visto, sempre a criticavam por tudo. 
As pessoas mais importantes em sua vida estavam passando a ser as indesejadas. O abraço forte e apertado. Um abraço que só conseguia sentir no dia de seu aniversário, porque geralmente nessa data as pessoas ficam mais "suaves" conosco. Algo errado, totalmente errado. O lobo selvagem dentro de seu coração começava a uivar, e isso a fazia sentir muito medo. Medo de se levantar na próxima manhã e estraçalhar tudo que encontrar pela frente. 
De repente, o telefone tocou. Era uma das pessoas que devia ser importante, mas ela ainda era, só que não tanto como antes, e não do jeito certo. Uma suave e melancólica melodia se repetia na mente da menina. Ela olhava para a janela, observando as folhas se moverem, dançarem ao vento. O céu num tom azul claro, quase sem nuvens. Alguns passarinhos voavam por ali, mas logo sumiam. A conversa no telefone foi breve, nada que melhorasse seu dia, nada que a ajudasse a ter motivos para lutar. 
Seus olhos se fecharam por longos minutos. Ela tentava acalmar os lobos dentro de si, aprisionando-os numa casa feita de cristal. Seu medo era de que essa casa se voltasse contra ela e nunca mais abrisse a porta. Sentia medo de ficar aprisionada no frio, com a cabeça enterrada num profundo oceano congelado. Medo de ver as águas de seu oceano começarem a escurecer. 
A música se repetia constantemente, e ela notou que tinha alguém olhando. Eram olhos grandes e azuis, puros e inocentes. Ele a olhava de forma intensa, talvez pensando no que ela podia estar pensando ou fazendo. Quando ela olhou para a criança, ele desviou o olhar, voltando sua atenção ao jogo do videogame. 
Ela respirou fundo e olhou novamente pra janela, desejando ser uma ave, almejando ser livre. Breves segundos se passaram e mais duas crianças apareceram. Uma esboçava um largo sorriso banguela, mas era o mais inocente dos sorrisos. A outra, a segurava pelas mãozinhas, guiando-a. Os olhos da criança maior eram belos. Uma mistura de castanho claro com verde, que as vezes ficava amarelado, mas que no sol, se tornava dourado. 
Quando a garota percebeu que as crianças continuariam ali, decidiu que deveria se levantar e engolir tudo que tinha sentido naquele breve momento. E ela novamente respirou fundo, tentando esboçar um leve sorriso nos lábios e se levantar da cama. E assim fez. Cantarolou a melodia suave, sentindo os lobos selvagens se acalmarem dentro de seu coração, observando todos os monstros de sua mente abrirem uma grande porta e voltarem para dentro. Os monstros a deixariam em paz durante algumas horas, e ela os agradecia por isso. 
Assim que se levantou da cama, deu um longo beijo na bochecha de criança mais nova e foi á procura do café da manhã. Ao sentir o gosto amargo do café em sua garganta, lembrou que precisava lutar, que ainda não era a hora de sair dali, e por isso suas vontades continuariam reprimidas. Seus desejos, suas opiniões... Ela sentia que ainda devia guardar tudo para si, e assim o fez. 

2 comentários:

  1. Era uma vez uma menina insatisfeita. Então ela matou todos e viveu feliz com sua adaga. E assim termina a história. u.u Ok, Brincadeira. Lindo texto, carregado de sentimentos, os quais sinto que surgiram da mais pura realidade e foram poetizados nessas linhas. Parabéns.

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    1. sushushushus' Pare de me conhecer, seu bruxo. E sim, essa manhã foi baseada em fatos reais. u.u Obrigada, cabeçón <3

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